Reformar ou Transformar: Discussão Filosófica sobre Mudança e Inovação – Parte 2

Neste artigo vou me aprofundar um pouco na questão filosófica – ou meramente teórica – da Mudança e Inovação, que lega à pergunta: Reformar ou Transformar?

A. Mudança e Inovação

O século vinte foi um século de mudanças. Se compararmos o início dos séculos vinte e vinte e um, 1901 e 2001, vemos que o mundo, na maioria dos seus aspectos, não era o mesmo nessas duas ocasiões. O fato de que em 2001 um novo milênio, e não apenas um novo século, teve início, ajudou a alimentar a sensação de que o mundo havia mudado radicalmente durante os cem anos anteriores.

É inegável que a inovação tecnológica, mesmo que não tenha sido um agente de mudança (esse papel está reservado exclusivamente para seres humanos), foi uma importante ferramenta de mudança. O telefone, o cinema, o rádio, o toca-discos, o automóvel, o avião, o computador, a Internet, a televisão, a câmera, o gravador e o reprodutor de vídeo, o telefone móvel, e muitas outras tecnologias (as tecnologias médicas, por exemplo) alcançaram seu ponto alto no século vinte, mesmo que suas raízes estivessem plantadas no século anterior (especialmente na segunda metade dele). No devido tempo, todas essas tecnologias, que originalmente eram bastante diferentes umas das outras, se tornaram digitais ou computadorizadas, em um mecanismo frequentemente chamado de convergência tecnológica.

As mudanças que essas tecnologias inovadoras ajudaram a produzir no mundo foram amplas, profundas e difusivas. Difusiva, no caso, quer dizer que quase todos os aspectos da vida privada, social e profissional foram afetados por elas.

A escola foi, e continua sendo, uma exceção notável (para citar um exemplo de uma de minhas áreas de especialização). É verdade que houve pequenas mudanças e inovações dentro da escola, mas elas foram, em sua maior parte, superficiais ou cosméticas, e frequentemente afetaram apenas uma só dimensão da instituição: a instituição como um todo não foi transformada.

Para melhor entender essa afirmação, precisamos ter em mente a relação entre mudança e inovação.

Inovação envolve mudança, mas nem toda mudança é inovadora ou produz inovação.

Como muitos autores convincentemente mostraram em tempos recentes, a partir da obra seminal de Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), há pelo menos duas modalidades de mudança:

  • Mudança Ordinária, ou mudança que tem lugar dentro de um paradigma estabelecido;
  • Mudanças Extraordinária, ou mudança que leva à substituição do paradigma vigente.

No primeiro caso, geralmente temos mudanças pequenas, aos pedaços, incrementais, graduais —  melhorias superficiais de um paradigma. As mudanças ou melhorias não questionam o paradigma: elas o dão por pressuposto. Quando elas têm que ver com a prática (e não com a teoria), essas mudanças e melhorias não se distanciam muito da forma convencional, quase universalmente aceita, de fazer as coisas.

No segundo caso, comumente lidamos com mudanças amplas, profundas, sistêmicas (holísticas), radicais, não raro abruptas, que levam à destruição de um paradigma estabelecido e à sua substituição por um outro. As mudanças aqui subvertem o paradigma estabelecido, posto que seu objetivo é substituí-lo por outro. Quando elas têm que ver com a prática (e não com a teoria), essas mudanças se distanciam significativamente da forma convencional, geralmente aceita, de fazer as coisas.

Se estendermos um pouco a analogia política, poderíamos dizer que a primeira modalidade de mudança é reformadora, enquanto a segunda é transformadora. Mudança reformadora é “mudança dentro do paradigma“. Mudança transformadora é “mudança de paradigma“. Mudança transformadora é algo equivalente, se não idêntico, a mudança revolucionária – mas prefiro a expressão mudança transformadora. É equivalente, também, se não idêntico, à recriação ou reinvenção daquilo que é objeto da mudança.

O principal indicador que diferencia a mudança transformadora da mudança reformadora é o grau de inovação que ela representa em relação àquilo que é atualmente pensado ou feito. Inovação tem que ver com o que é novo. Seu grau pode ser mensurado comparando o que é novo na mudança, seja ela de pensamento ou de prática, com o pensamento e a prática atuais. Quanto maior for o grau de inovação, tanto maior a distância do pensamento ou da prática atuais, e assim tanto maior a amplitude, a profundidade, a inclusividade, e a radicalidade da mudança.

A seguinte figura, retirada de um pequeno livro de David Hargreaves chamado Education Epidemic, que está disponível gratuitamente na Internet, ajuda a entender o que está sendo dito aqui.

Mudanca e Inovacao - Hargreaves

B. Reforma ou Transformação?

O gráfico mostra que as duas modalidades de mudança mencionadas podem levar a:

  • Reforma (ou, como eu prefiro, Reformação, mas reconheço que o termo não é usado no Brasil, sendo o termo de rigor nos Estados Unidos) institucional ou organizacional: quando a mudança tem lugar dentro das estruturas existentes e mantém o presente paradigma;
  • Transformação institucional ou organizacional: quando a mudança vai além das estruturas existentes e substitui o presente paradigma (transformar é ir além [trans] da forma presente, transcender a estrutura existente, substituir o paradigma).

Outra fato importante é o seguinte. Se, em um processo de mudança, privilegiamos o pensamento e a prática existentes, a inovação será a primeira vítima: haverá pouco que é novo nas mudanças e o resultado final não será muito diferente das condições iniciais.

Três curtas citações, oriundas de diferentes fontes, corroboram essa tese:

“A única maneira de mudar drasticamente o mundo (ou suas instituições e organizações) é imaginando-os radicalmente diferentes do que são hoje. Se, no processo de mudança, fizermos uso demasiado da sabedoria e do conhecimento que nos trouxeram até aqui, terminaremos bem próximos de onde começamos. Se você quer obter resultados diferentes, comece olhando as coisas de novo, só que agora de uma perspectiva totalmente nova” (Jay Allard, ex-Vice-Presidente da Microsoft – a linguagem foi um pouco alterada para ênfase; negrito acrescentado).

“Se você continuar fazendo basicamente a mesma coisa que tem sempre feito, você continuará obtendo basicamente os mesmos resultados que sempre obteve” (Jack Canfield, autor bem conhecido – com pequena alteração para ênfase e negrito acrescentado).

“Insanidade é fazer basicamente a mesma coisa um dia após o outro e esperar que de repente apareçam resultados diferentes” (atribuído a muitas pessoas, inclusive Benjamin Franklin e Albert Einstein – negrito acrescentado).

Como já mencionado, os últimos sessenta anos trouxeram ao nosso mundo mudança ampla, profunda, sistêmica (holística), radical, não raro abrupta e frequentemente não esperada. Essa mudança nos levou a nos distanciar das ideias e das práticas correntes em quase todas as áreas da vida — distanciar-nos o suficiente para que muitos autores importantes passassem a falar em uma nova Renascença, uma nova era, e até mesmo em uma nova civilização. É difícil imaginar que esse nível de mudança pudesse deixar importantes instituições da sociedade, como é o caso das instituições políticas (e da escola), inalteradas.

Volto a ilustrar com a escola. Como também mencionado na seção anterior, a escola foi, e continua a ser, uma notável exceção entre as instituições que o século vinte herdou dos séculos anteriores. Embora seja inegável que tenha havido pequenas mudanças dentro da escola nos últimos duzentos e cinquenta anos, mais ou menos, elas foram, em sua maior parte, superficiais e cosméticas, e frequentemente afetaram apenas uma só dimensão da instituição: ou o currículo, ou a metodologia, ou a forma de avaliação, ou o tipo de tecnologia utilizada, ou os demais recursos empregados, ou o estilo de gestão, ou a relação com o mundo do trabalho, ou a relação com a comunidade do entorno, etc. A instituição em si não foi significantemente modificada. A escola certamente não foi transformada no processo: ela continua a ser basicamente a mesma instituição criada cerca de dois séculos e meio atrás, no início da Civilização Industrial. As inovações que inundaram outros setores da sociedade passaram ao largo dela.

Parece haver pouca dúvida de que a escola se tornará uma instituição obsoleta (assumindo que não tenha ainda se tornado isso) e eventualmente desaparecerá, se nós permitirmos que ela fique satisfeita com um tipo menor de mudança que a deixe perto demais do pensamento e da prática existentes. Mas é isso que acontecerá se nós limitarmos o grau de inovação que a afete.

Assim, quando falamos em inovação, é esta segunda modalidade de mudança que devemos ter em mente: mudança transformadora. É nada menos do que a reinvenção da educação em um sentido desescolarizado que devemos perseguir. E, entretanto, essa mudança não acontecerá rapidamente: vai exigir persistência e paciência. (Apresentei recentemente em uma Conferência nos Estados Unidos, PBL-2018 – Problem-Based Learning, Fevereiro de 2018, o seguinte artigo: “Reinvent the School or Deschool Education?”, que pode ser lido em meu blog Deschooling Education, no URL https://deschooling.education/2018/02/18/reinvent-the-school-or-deschool-education/.

C. Para o Brasil: Reforma ou Transformação?

No caso do Brasil, será que uma Reforma Política basta ou será que precisamos algo mais abrangente e profundo, que possa ser caracterizado mais como uma Transformação Cultural e Moral, ou uma Revolução Pacífica das Ideias e dos Costumes?

Menciono os exemplos constante dos pontos do Movimento Reforma Brasil – MRB.

A questão do Fim do Foro Privilegiado. Se o Foro Privilegiado for eliminado, ou tiver o seu escopo restringido para os Chefes dos três poderes, et ceteris paribus (e as demais coisas ficarem iguais ao que são), vai fazer que (a menos que Supremo Tribunal Federal mantenha, com rigor, o seu atual entendimento) os processos de deputados e senadores vão para a Primeira Instância e só vão transitar em julgado depois de os respectivos acusados estarem mortos – situação em que sua eventual condenação não redundará em nada.

A questão do Fim das Reeleições sem Limites para o Legislativo. Sabemos que no Brasil é comum algum deixar de ser Deputado ou Senador e passar a ser Prefeito ou Governador, ou, então, ir para outro ramo do Legislativo (Eduardo Suplicy deixou de ser Senador e foi ser Vereador de São Paulo). Ou, então, o Deputado ou Senador deixa de concorrer mas elege o filho, ou o cônjuge, ou o sobrinho e continua a mandar. Isso acontece também no Executivo, em que o cônjuge de um Governador é eleito no mandato seguinte. (Na Argentina aconteceu já três vezes de a mulher de um Presidente vir a ser eleita “Presidenta” na sequência). Se não forem mudados a cultura, os valores, e o caráter das pessoas, essa é uma reforma, isto é, uma pequena mudança cosmética, que dá a impressão de que algo importante foi mudado apenas para que aquilo que realmente importa continue a ser como sempre foi.

No caso do Voto Distrital, a criatividade brasileira já trabalhou, inventando o chamado “Distritão”, que faz com que o Voto Distrital tenha o seu impacto reduzido pela metade. Quando o “Voto Distrital Misto” vier a ser aprovado, como virá, isso será indício de que o Congresso já encontrou todas as saídas para que a medida se torne inócua e tudo permaneça como está.

É isso. Por enquanto.

Em São Paulo, 25 de Fevereiro de 2018

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